terça-feira, 31 de agosto de 2010

No hay banda

Aquele silêncio era incrivelmente incômodo. Os sons que ficavam rodando a caixa ascendiam até que não houvesse interferências externas. Qualquer tentativa fora abafada, mesmo com inútil insistência.
O vento da madrugada que outrora anunciara bons presságios, o feixe de luz ao tocar à janela ou passos no corredor, até mesmo aqueles latidos pulguentos que vinham me visitar desapareceram. Todos eles agora pertenciam ao Reino do Silêncio.
Entretanto, no âmbito da caixa escura, imagens se revelaram: cabeças passaram por um corredor escuro, bocas soltas e sorrisos perdidos ao redor. Nenhum sinal de caminho de volta para casa. Isso não fazia muita diferença. Mil portas, pequenas e grandes, tudo a sua medida. Mãos perfuradas mandando-me fazer. Fugira.
Porém, no único local que parecera realmente seguro, sombras passavam ritmicamente como peças de xadrez, as peças brancas foram pintadas de vermelhas. Já não conhecia mais nada. Eu tinha medo do que se escondia dentro do chapéu. Eu correra da rainha de copas. Para aonde, não sabia. A casa ficara menor enquanto eu estava prestes a explodir.

Nenhum som amigo em resgate. Somente aquela música estrondosa. Tomando cuidado para não acordar o quarto ao lado, reuni todos ali no centro e, naquele silêncio, matei todos.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Criaturas fantásticas e onde habitam

(Para um ser serzinho que conheci uma vez.)

Não sei se por entre as 'árveres', enfeitando jardins, ou debaixo de algum cogumelo por aí. Já estou à procura, faz um tempo. (Oh, coisinha chata há de ser o tempo!). Mas eu continuo procurando. (Oh, coisinha superendente há de ser a procura!).
Eu tenho certeza. Alguma vez por onde eu passei vi um serzinho de chapéu pontiagudo saltitante fazendo ‘arte’ e escondendo potes de ouro. (Oh, coisinhas discordiosas hão de ser os potes de ouro!).
Nesse mesmo dia a tal criaturinha parou e se aproximou... lentamente. Olhou para mim com olhos curiosos e sorriu. Depois, correu. Eu fui atrás. Tombei pelo caminho. Ela riu alto. (Oh, coisinha desastrada hei de ser eu!). Mas ali naquele lugar misterioso algo acontece, fui criando um misto de apego e curiosidade pela criaturinha. Até que íamos bem quando de súbito... abracadabra! E mais rápido que um puff, ela foge das minhas vistas.
Saudades daquela época em que eu gritava "Força no gorrinho" e ia direto ao final do arco-íris, dessa vez, não em busca de ouro, mas de uma companhia para todas as horas. (Oh, e que coisinha complicada hão de ser as inter-relações no mundo moderno, onde estar ‘conectado’ é fácil, mas estar ‘apegado’ é cada vez mais difícil!)
E por que eu continuo a busca? Porque dentro de uma cartola de problemas lá no fim ainda há quem me anime e me faça rir com todo seu ar serelepe de juventude mesclado com ar sereno de anos de experiência. (Oh, que coisinha instável há de ser a idade!)
“Se você acredita em duendes grite bem alto”.
Eu acredito!
Pode ser que algum dia eu passe num fim de tarde por debaixo de um arco-íris e, quem sabe, eu encontre novamente aquela criaturinha saltitante para que eu possa contar histórias sobre ela.
E como eu posso ter tanta certeza? (Oh, que coisinha mágica há de ser a amizade!)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

3 dias, 33 horas, 30 minutos

Os céticos não acreditam
mas "dúvida" existe
Os incrédulos evitam
mas "dúvida" aparece
Os infiéis não compreendem
mas há uma força maior do que nós

Números se agregam à contagem
ao passo de que insônia
se tornou uma velha companheira
Horas são devoradas a plena luz
Porque na ausência desta
você tem que se apegar
nem que seja no que não foi

Apesar de tudo, aquele duvida da dúvida:
Quanto tempo resta para o restante?

terça-feira, 27 de abril de 2010

Café e biscoitos

Dia, 9h47:

Estava ensolarado. Ele entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar.
Traz consigo uma pasta, alguns papeis, e um monte de trabalho.
A garçonete novata e desengonçada traz à mesa. Serve os biscoitos pela direita enquanto a outra mão sustenta a pesada badeja. Vai, serve a xícara de café e, acidentalmente, derrama em seu paletó. Ela, rapidamente, começa a limpá-lo com um guardanapo. Ele a toca no ombro delicadamente e lhe lança um sorriso. Ela sai.

Dia, 9h43:

Estava ensolarado. Ele entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar.
Faz anotações no laptop enquanto espera. Ata o nó da gravata. Se sente incomodado com os sapatos, mas, apenas faz um semi-gemido de dor. Continua batendo o pé.
A garçonete novata e desengonçada traz à mesa. Desta vez, com um ligeiro acrescimo no número de biscoitos. Ela sai.

Dia, 9h45:

As nuvens indicavam chuva breve. Ele entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar.
Os botões da camisa estavam mal abotoados. Irritado ele se dá conta que esqueceu o celular. Começa a abotoar os botões e arrumar a gravata.
A garçonete novata e desengonçada traz à mesa. Naquela manhã o café estava mais doce que de costume e idubitavelmente delicioso. Ela sai.

Dia, 9h44:

A previsão indicara pancadas isoladas durante todo o dia. Ele entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar.
A pasta acidentalmente se abre e papeis voam no ar. Ele os apanha com expressão de profunda revolta. Sacode a poeira. E se senta à mesa.
A garçonete novata e desengonçada traz à mesa. Chegara à conclusão de que ali faziam o melhor café que já provara. Ela sai.

Dia, 9h48:

As nuvens estavam pesadas. Ele entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar.
A gravada estava atada, cinto no lugar e os negócios iam bem.
A garçonete novata e desengonçada traz à mesa. Ela sai. Decidiu que tomara um vício por aqueles biscoitinhos também e logo procuraria à receita, mesmo não sendo lá muito habilidoso na cozinha. Ele engole tudo muito rapidamente, iria chegar atrasado no trabalho.

Algum dia, 9h43:

Os dia calorosos voltaram. Ele entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar.
Abre um grande sorriso ao fazer o pedido.
A garçonete desengonçada traz à mesa. Desta vez com um anexo: um bilhete. Ela sai. Ele lê tudo atentamente e mira ao redor procurando quem poderia tê-lo enviado. A mulher na mesa ao lado manda-lhe um sorriso. Ele sorri também.

Mais um dia, 9h30:

Um clima ameno, nem quente nem frio. Ele despede-se da nova namorada com um beijo, entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar. Logo ele muda de idéia e pede um chá. Hoje estava adiantado e poderia demorar um pouco mais. A garçonete desengonçada traz à mesa. Seria o chá dali tão bom quanto o costumeiro café? Dá um prolongado gole quando pára. Cai lentamente ao chão, duro como uma pedra. Ela sai.

domingo, 25 de abril de 2010

Sina

Narrador em primeira pessoa
impera em fatos suspeitos
e opiniões irrelevantes
Já não sei se entro em desvantagem
ou se fui perdendo velocidade

A vida é uma competição
antes mesmo de começar
Mas a batalha, de fato,
só existe quando persiste
a possibilidade de perda
Corações carentes sempre foram
o alimento favorito do meu ego

Então, dê um descanso
a minha alma perturbada
Porque, ao cruzar primeiro
a linha de chegada
vou querer ser o outro competidor
e ter inveja da minha cara fracassada

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Um mundo de idéias

Voltando para casa (se aqui me cabe a palavra), na escuridão entre um toco de cigarro sendo apagado pela garoa e um grafite dançante, vêm aquela máxima na cabeça: "O mundo é redondo". Seguida de um perigosa que até temo pronunciar: "Mas por que, afinal?". Sem quer criticar Copérnico nem nada, apenas estive refletindo sobre o formato do mundo.
Já falam muito sobre as dimensões, área e pontos carteseanos, não se trata disso, queria entender por a sociedade (humana ocidental,- ou uma colônia de chipanzés, também ilustraria o exemplo), crêem piamente na "ovalidade" do mundo. Calma, e antes que me venham com Weber's e Comte's da vida, recorramos à inatas de Kant: Em algum lugar num passado longinco alguém me disse que o mundo era redondo, E EU ACREDITEI. Você também. Todo mundo!
"Minha filha, o mundo é redondo." - Já dizia o Pai, o Padre, o Professor, o Político.
Entretanto ali, naquele beco de rua fedorento, me atrevi a olhar para frente e ver toda aquela extensão exatamente plana, mas nãããão... Existem os Erastónes, números, gráficos, toda aquela tabelada para provar que a terra é um ovo -de codorna pelo visto.
Se ninguém te contasse, você conseguiria imaginar?
Povos da antiguidade já pensaram na terra como um prato, carregada por tartarugas, elefantes, homens gigantes e condenados...
"Se é desse formato é por que num mundo ideal, no qual, esse é um mera cópia, o formato ideal é esse."
- Aham, Platão, Senta lá.
"Vamos analizar o seu inconsciente. Nos seus sonhos, o planeta tem um valor simbólico, e a sua frustração indica repressão e profundo trauma de infância. Tens um problema."
- E o que não é um problema para Freud? É um ótima maneira de explicar tudo. Temos um problema!... Ou eu tenho um problema... Mas o "grande problema" é que este exato encontro da minha latitude com a longitude não explica uma coisa: Por que o mundo tem que ser redondo ou quadrado quando existe um mundo de possibilidades pela frente.
"Eppur si muove!"
- Disse alguma coisa, Galileu?

sábado, 3 de abril de 2010

Registro: 3146767

Eu já sabia porque me abandonaste.

Em meio àquele mundo de loucos e sãos

Enfileirados para o abate.

Cada qual com seu código

Conhecendo a dor da espera,

Superando a dor da perda

Para abraçar com todas as forças

A dor do desconhecido,

Da tentativa e erro,

Do pecados previamente cometidos

E nessa sexta de paixões, ressuscitados.

Outrora foram

Apenas anseios e dúvidas

Enfiadas em alguma gaveta

Junto a projetos de futuro.

Carrego na minha cruz

Peso de um milhão de almas

Condenadas a vagar para o sempre

Procurando sons dissonantes

Coroados e untados com sangue.

As marcas nas palmas comprovam

A banalidade de ser normal.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Promessa

Quando eu abrir a janela
através dela
passará um som
que correrá os quatro cantos
do país
Mesmo que enquanto
a minha voz acabe
e os dedos sangrem
Só pra que você escute
e eles retornem aonde pertencem

quinta-feira, 11 de março de 2010

Sessão das três

“E lá vai ele de novo?”. Todos ficavam um tanto quanto chocados com a nova mania de Seu Zé. Algum tempo antes, o antes alegre e experiente senhor com mais anos do que Deus poderia contar, se tornara pacato e taciturno... Até a chegada de um Cinema na cidade.

Um antigo galpão foi alugado por uma empresa “chique do exterior” que rapidamente organizou salas, lanchonete, bilheteria... Tão perto que o vivido senhor atravessava a esquina e já estava lá.

O filho, já homem feito, não compreendia, quando criança sempre ouvia o pai reclamar “desse maldito hábito que os novos têm de ver aquela coisa quadrada piscando”. Nunca deu bola para televisão. O neto no computador era quase um desacato à autoridade. Dizia que no tempo dele, a era do rádio, tudo era mais fácil, MELHOR. Dizia que os meninos de hoje eram mal criados porque nasceram na época errada. No seu tempo, ai de moleque que atazanasse alguém. As pessoas eram mais sociáveis, a imaginação era mais fértil, a cidades eram mais limpas, até a comida tinha um sabor melhor.

Há mais de uma semana ele ia ao cinema todo santo dia no mesmo horário, ver o mesmo filme. Para alguém que via imagens em movimento como uma coisa pecaminosa era alívio vê-lo entretido com algo.

Não durou muito a aquele novo “hobby” preocupar o filho. Quando interrogado sobre o porquê de tanto passar horas dentro da sala escura soltava um curto e grosso: “Vá arrumar o que fazer!”.

A conselho da nora preocupada, o filho decidiu segui-lo um dia, sentou-se ao fundo do cinema, esperou as luzes se apagarem e, cuidadosamente, espionou o pai, alheio à sua presença. O idoso se mantinha de olhos fechados esboçando um leve sorriso com a cabeça recostada à poltrona. Então, ele só queria um lugar para dormir? Nem chegava a assistir o filme. Por que não fazia isso em casa? “Pelo menos, ele arrumou o que fazer”, se confortou o filho.

A família, já tranqüila, o observou sair de casa com sua maleta de couro. Seu Zé atravessou a rua entrou na sessão de sempre e se aconchegou na poltrona. Quando as luzes se apagam e a tela acende começa sua aventura: fecha os olhos, relaxa, e o barulho começa. Primeiro de um lado, depois do outro, o ruído estranho de criaturas que enfiavam as mãos até o fundo do pote e voltando carregada. Era independente o filme que passasse, Seu Zé só adorava o barulho de pipoca sendo mastigada no escurinho da sala. Fechava os olhos, repousava a cabeça, e ria. Ria...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

E quando você acordar, eles ainda estarão lá

Tudo parece tão calmo

Como se algo muito ruim tivesse acontecido

Tranquilidade comprimida

em duas cápsulas e um copo d'agua

O resto pode esperar até amanhã

É apenas mais um dia de incertezas

em que o cansaço carrega

Insólitas e solitárias formas

Eles te farão companhia essa noite.


Eles estão em toda parte

Eles estão em toda parte


O nascimento do círculo brilhante

e o aborto de cada alma

Movidas a xícaras e xícaras de petróleo

Seria uma boa chance

para mudar...

Se eles não estivessem por perto.


Mas esqueça tudo isso,

Vá dormir agora!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Borda de catupiry e mostarda

- Este lugar é perfeito!
Sentam-se.
- E, então, quais as novidades?
- Nenhuma grande, estou continuando a faculdade...
- Não reprovou em nada, né?
- Não, eu...
- Que bom, Meu pai sempre dizia “Se você quer ser alguém na vida tem que estudar e trabalhar duro”.
- Estudou estudando duro...
- Muito bom, sou professor, você se lembra. E não tem nada que odeio mais que aluno relapso.
- Não sou desse tipo.
- É Federal sua faculdade, né?
- Estadual. De Artes.
- Meu pai sempre dizia “Faça o que fizer seja bom naquilo que faz”.
- É o que espero.
Silêncio.
- Vou pedir pizza com borda recheiada de catupiry.
- Tudo bem.
- Ou preferia outra?
- Na verdade. Eu não gosto muito de borda recheada... mas se quiser pode pedir.
- Não!?
- Nunca fui muito fã de catupiry.
- Entendo...
Silêncio.
- Ainda faz aulas de inglês?
- Não, terminei o curso. Estou tentando um bico de professora agora.
- Guardei uma revista em inglês para você, peguei no avião.
- Hã... Valeu.
A Pizza chega.
- Não troxeram a mostarda.
- Garçon!
- Você volta no feriado?
- Provavelmente, não. Vou estar fazendo cirurgia nessa época, minha ti...
- Cirurgia de quê?
- Nada muito sério... Um probleminha genético...
- A sua mãe tem?
- Não.
- Entendo... Pizza boa, não?
O Garçon traz a conta.
- Deixa que eu pago. E a sua mãe como vai?
- Ela tá em três empregos, correndo muito...
- Sei como é...
- Talvez, largue um deles.
- Sim, o stress.
- Precisa de ajuda para pagar o aluguel, gasolina, alimentação, coisas assim... Estava pensando se o senhor...
- Me chame de você.
- Se você não poderia ajudar... Dar uma parte...
- Entendo... Bem... Na segunda eu deposito na conta dela. Aquela que ela me deu da outra vez?
- Sim.
Silêncio.
- Acho que já tenho que ir. Quer carona?
- Não, eu pego um táxi, ligo para alguém...
- Tem certeza?
- Sem problemas.
- Boa noite, então.
- ‘Noite.
- Até a próxima!
- ‘Té!... Espera!
- Sim?
- Adoro pizza de Atum.
- Eu também. Deve ser de família.
Despedem-se.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Caneta Mágica

Época para quando
eu estivesse
sem inspiração

Pois vendada ando
Antes houvesse
mais munição

Clássicos dos anos 80
ao fim de tarde
De tanto que tenta
A ferida arde

A esperança a espera de esperar
O lance da laça que lança
A Pena que pena. Que Pena!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Para um grande poeta

Suas palavras são tão belas quanto
um sabiá a cantar
gripado.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O Sentido horário da acefalia de um movimento circular uniforme

Eis o caminho!
Oh, que sei eu a respeito
de caminhos e estradas?
Carrego o pesar de ficar em estática
enquanto o mundo roda e roça
coisas ao redor de mim

As empurra e as arrasta
como ondas que puxam oferendas para o mar
antes de serem engolidas
por alguma divindade maldosa
que devora almas para se manter vida
e as tempera com fé previamente banhadas em medo
Antes mesmo disso, acabariam digeridas
em estômagos de ferozes criaturas
num fundo de escuridão, (Ou não?)
comendo os dejetos da superfície
(Que sabem os de cima sobre os que ficam embaixo?)
(O que poderia opinar o pirulito sobre o palito?)

Não. O não-movimento é a força absoluta.
Do outro lado da parede
há um muro
E nenhuma janela.
Se antes houvesse uma pequena
caverna subterrânea
onde cabeças e a almas se perdessem
a fim de explorar o que há
do outro lado da muralha
- Dar um tapa na cara do desconhecido -
(Sua mãe deve estar preocupada)
- Abra a boquinha, Não vai doer nada! -
Seu intestino trabalha como um operário
em uma mira de carvão
Se encontrasse algum ouro
seria bom.
- Mas seria ele infinito? -
Quem dera poder quebrar um relógio
e com seus ponteiros
cavar um buraco
mesmo que não largo o bastante
para uma passagem,
que, ao menos, tivesse
uma luz da superfície.
Naquela telinha passa
todo o cotidiano falível
em ritmo perfeito
e overdose de cores
- Malditas cores, cegam os olhos -
Uma hora alguém aperta o botão
e a terra desaba
levando tudo consigo

Ei, imagens! Onde estão?
Logo ali estava...
Onde fica o banheiro?
Eu jurava que era logo ali.
Sim, é logo ali.
O que eu vim fazer aqui mesmo?
Há um ventilador no outro cômodo
Você sabe quem sou?

Em verdade, eu vos digo:
Um sofá tem mais mobilidade que um míssil.
Não me venha com palavras impossíveis
O impossível é impossível outra vez.
Eis o mistério da fé!
Mo-bí-li-a
Amém!

De onde vêm todas essas cores?
E essa marca roxa logo ali na curva
Bem ali. Ai!
Posso ouvir as vozes
mas não ver suas fontes
Como as portas que batem
e as sombras que partem
só restam os lençóis
ao sol, pendurados no varal
Ora! Hora serão recolhidos
ou levados pelo vento
Ponto.

Tinha uma abelhinha do outro lado
da roleta
a bolinha tinha acabado de cair nela
Eu ainda tenho que te dizer
tem uma coisa pra te dizer
(Já disse?)
Se disser mais uma vez
desta vez
seria diferente
- Fique uma rodada sem jogar -
Câmbio, desligo.

Marteladas registram o caminho
do que foi ontem
o ninho não foi achado
O ponto de partida
foi engolido pelo caminho
e quanto ao de chegada...
Mas uma jogada perdida.
Travesseiros amenizam o peso sustentado pela cama
Gira, Ventilador, Gira!

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A veia e a Agulha

De uma envelhecida fotografia

as cores escorrem pelas bordas

Só resta o vermelho que um dia

coloriu essa cena morta


Uma seringa com um puxão

Não se trata de medo da dor

mas de trauma da perfuração

De hospital à show de horror


Enfermeira, me traga um sedativo

Só mais uma picada

pra saber se ainda vivo


Na última dose faço uma inversão

de sangue não me resta nada

vou bombear lágrimas para o coração

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Coloquei um anúncio no jornal

todos vieram ver

uns de carro

uns de ônibus

uns de biclicleta

uns de avião

uns de jegue

uns nem sei não

de que vieram

mas assim se propuseram


o anúncio não tinha hora

nem lugar

e todos seguiam

tateando no escuro

pelo centro

lento

ao som do vento

local

só não mais boçal

do que quem

veio a publicar


Avise a todos

a Ana

a Lana

a mana encima da cama

a Fulana, a Ciclana, a Xantana

a Tana

que come banana

e a Leia

que não rima

mas prefiro esse imã

antes que eu mude de idéia