quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Natal em família

Nota: essa é uma estória realistimamente fictícia.


Ah, o natal! Enfeites, ceia, presentes, músicas alegres e toda a família reunida.
Crianças correm pela casa.
- Esses monstrinhos! – Resmungava aos cantos a matriarca que agora com seus muitos anos, bem refletidos nas rugas e cabelos brancos, não suportava aquela gritaria.
O genro mais velho observava:
- Querida, é melhor dar uma olhada na sua mãe.
Esse era o único dos que se atreveram a desposar uma "das suas" que a velha aceitava., afinal era o mesmo que botava dinheiro em casa. Ninguém tinha muita certeza de como. Alguns suspeitavam que... Melhor deixar de lado. Aos olhos de todos, este é um verdadeiro homem de família.
O filho adolescente trancado no quarto hackeando contas bancarias para sustentar um vicio que sua mãe desconhecia, ou ignorava.
Riam. Eita, graça besta!
- Filho, é hora da oração.
A mãe era uma católica fervorosa, acorada seis da manhã para pegar a primeira missa do dia, outra a tarde, a da noite era sagrada. Não perdia uma. Egoísta, preconceituosa e azarenta. Sem nenhum pecado, tinha sua entrada garantida no céu por 21 missas semanais.
A outra filha não largava o celular.
- Se você não descer em 5 minutos... – Ameaçava a mãe.
Lá vem a empregada com a travessa de peru.
Um tio vomitando de bêbado ao fundo.
- AUUUUUUU, AUUUUUUUUU!
- Alguém prende esse cachorro!
- Buááááá!
- Droga, acordou o bebê?
- A tia Chiquinha vai passar dormindo outra vez? Quando ela vai superar a perda do marido?
“Neguinha gostosa essa”. Pensava o genro mais novo, do tipo bonitão, galante, rico, um partidão. Quem todas as moças da cidade da cidade desejavam, e com quem a maioria fazia “visitas” sem o conhecimento da esposa.
A esposa desse era do tipo perfeita para casar. Submissa e burra como uma porta. O casamento não ia bem há tempos e todo mundo sabia disso.“Eu que não fico solteira”, recitava o mantra.
Ela não ficaria solteira como a irmã, independente, mas solitária. Vivia viajando para passar o máximo possível longe daquela família. Este ano não teve escapatória.
A festa corria dentre falsos sorrisos e abraços cínicos. O garotinho mimado birrava e se jogava ao chão, queria abrir o presente antes da hora. O barulho só não era mais insuportável que as antigas músicas natalinas.
Alguém tinha que registrar o momento.
- Querido, pega a câmera!
- Menores à frente.
- Alguém faz essa criança calar a boca!
- Eu não fico reclamando dos seus filhos.
- Menina, larga esse celular!
- SORRIAM!
- Papai, a vovó tá gelada e não tá mexendo.
- Segura ela aí no fundo que ninguém vai perceber.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

2:43

Droga!

Não consigo dormir. Viro para um lado, viro para o outro...Nada!

Posso tentar contar carneirinhos. Um, dois, três...duzentos e vinte...

- Hei, você!

- Béh!?

- Você mesmo Como vai a vida?

- Béh.

- Nem me fale. O que faz acordado a essa hora?

- Béééh!

- Desculpe, estou com insônia. Se quiser ir, vá. A solidão é boa companheira.

- Béh?

- Não tenho nada para fazer amanhã. Nada importante pelo menos, apenas mais um dia na vida.

- Béh, béh, beh.

- Talvez. Amanhã pode ser O Dia. Poderei fazer coisas incríveis e impensáveis, a vida pode mudar, conseguir um emprego, ganhar uma viagem, encontrar meu grande amor, talvez eu morra amanhã...

- Béh!

- Nem eu. Quem quer ser aquele que dá a má noticia?

Silêncio.

- 24 horas é muito pouco. Depende. Suficiente? Não é o bastante. Não, é o bastante. Queria estar em qualquer outro lugar. Amanhã vou respirar novos ares. É incrível como somos obrigados a respirar algo insípido como o ar. Se o ar tivesse gosto de chocolate a vida teria mais sabor. Acordaria com uma vontade louca de viver. (Nem todos gostam de chocolate). Para aonde vamos quando dormimos? De que são feitos os sonhos?

- Béh?

- Toda vez que durmo, mudo. O mundo continua girando. O movimento é ininterrupto. Temo o mundo que irei encontrar ao despertar, temo olhar-me ao espelho, temo cometer o erro de errar. Sim, errar é humano, recordar é viver, falar é fácil, tente gritar no escuro!

- Béh.

- Eu sei disso. Não sei não. Quando acho que já sei demais é porque não sei coisa alguma.

- Béh?

- A única exceção é os ombros que doem. Preciso dormir.

- Tudo vai ficar bem. – Disse-me o travesseiro.