Nota: essa é uma estória realistimamente fictícia.
Ah, o natal! Enfeites, ceia, presentes, músicas alegres e toda a família reunida.
Crianças correm pela casa.
- Esses monstrinhos! – Resmungava aos cantos a matriarca que agora com seus muitos anos, bem refletidos nas rugas e cabelos brancos, não suportava aquela gritaria.
O genro mais velho observava:
- Querida, é melhor dar uma olhada na sua mãe.
Esse era o único dos que se atreveram a desposar uma "das suas" que a velha aceitava., afinal era o mesmo que botava dinheiro em casa. Ninguém tinha muita certeza de como. Alguns suspeitavam que... Melhor deixar de lado. Aos olhos de todos, este é um verdadeiro homem de família.
O filho adolescente trancado no quarto hackeando contas bancarias para sustentar um vicio que sua mãe desconhecia, ou ignorava.
Riam. Eita, graça besta!
- Filho, é hora da oração.
A mãe era uma católica fervorosa, acorada seis da manhã para pegar a primeira missa do dia, outra a tarde, a da noite era sagrada. Não perdia uma. Egoísta, preconceituosa e azarenta. Sem nenhum pecado, tinha sua entrada garantida no céu por 21 missas semanais.
A outra filha não largava o celular.
- Se você não descer em 5 minutos... – Ameaçava a mãe.
Lá vem a empregada com a travessa de peru.
Um tio vomitando de bêbado ao fundo.
- AUUUUUUU, AUUUUUUUUU!
- Alguém prende esse cachorro!
- Buááááá!
- Droga, acordou o bebê?
- A tia Chiquinha vai passar dormindo outra vez? Quando ela vai superar a perda do marido?
“Neguinha gostosa essa”. Pensava o genro mais novo, do tipo bonitão, galante, rico, um partidão. Quem todas as moças da cidade da cidade desejavam, e com quem a maioria fazia “visitas” sem o conhecimento da esposa.
A esposa desse era do tipo perfeita para casar. Submissa e burra como uma porta. O casamento não ia bem há tempos e todo mundo sabia disso.“Eu que não fico solteira”, recitava o mantra.
Ela não ficaria solteira como a irmã, independente, mas solitária. Vivia viajando para passar o máximo possível longe daquela família. Este ano não teve escapatória.
A festa corria dentre falsos sorrisos e abraços cínicos. O garotinho mimado birrava e se jogava ao chão, queria abrir o presente antes da hora. O barulho só não era mais insuportável que as antigas músicas natalinas.
Alguém tinha que registrar o momento.
- Querido, pega a câmera!
- Menores à frente.
- Alguém faz essa criança calar a boca!
- Eu não fico reclamando dos seus filhos.
- Menina, larga esse celular!
- SORRIAM!
- Papai, a vovó tá gelada e não tá mexendo.
- Segura ela aí no fundo que ninguém vai perceber.