Aquele silêncio era incrivelmente incômodo. Os sons que ficavam rodando a caixa ascendiam até que não houvesse interferências externas. Qualquer tentativa fora abafada, mesmo com inútil insistência.
O vento da madrugada que outrora anunciara bons presságios, o feixe de luz ao tocar à janela ou passos no corredor, até mesmo aqueles latidos pulguentos que vinham me visitar desapareceram. Todos eles agora pertenciam ao Reino do Silêncio.
Entretanto, no âmbito da caixa escura, imagens se revelaram: cabeças passaram por um corredor escuro, bocas soltas e sorrisos perdidos ao redor. Nenhum sinal de caminho de volta para casa. Isso não fazia muita diferença. Mil portas, pequenas e grandes, tudo a sua medida. Mãos perfuradas mandando-me fazer. Fugira.
Porém, no único local que parecera realmente seguro, sombras passavam ritmicamente como peças de xadrez, as peças brancas foram pintadas de vermelhas. Já não conhecia mais nada. Eu tinha medo do que se escondia dentro do chapéu. Eu correra da rainha de copas. Para aonde, não sabia. A casa ficara menor enquanto eu estava prestes a explodir.
Nenhum som amigo em resgate. Somente aquela música estrondosa. Tomando cuidado para não acordar o quarto ao lado, reuni todos ali no centro e, naquele silêncio, matei todos.