terça-feira, 27 de abril de 2010

Café e biscoitos

Dia, 9h47:

Estava ensolarado. Ele entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar.
Traz consigo uma pasta, alguns papeis, e um monte de trabalho.
A garçonete novata e desengonçada traz à mesa. Serve os biscoitos pela direita enquanto a outra mão sustenta a pesada badeja. Vai, serve a xícara de café e, acidentalmente, derrama em seu paletó. Ela, rapidamente, começa a limpá-lo com um guardanapo. Ele a toca no ombro delicadamente e lhe lança um sorriso. Ela sai.

Dia, 9h43:

Estava ensolarado. Ele entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar.
Faz anotações no laptop enquanto espera. Ata o nó da gravata. Se sente incomodado com os sapatos, mas, apenas faz um semi-gemido de dor. Continua batendo o pé.
A garçonete novata e desengonçada traz à mesa. Desta vez, com um ligeiro acrescimo no número de biscoitos. Ela sai.

Dia, 9h45:

As nuvens indicavam chuva breve. Ele entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar.
Os botões da camisa estavam mal abotoados. Irritado ele se dá conta que esqueceu o celular. Começa a abotoar os botões e arrumar a gravata.
A garçonete novata e desengonçada traz à mesa. Naquela manhã o café estava mais doce que de costume e idubitavelmente delicioso. Ela sai.

Dia, 9h44:

A previsão indicara pancadas isoladas durante todo o dia. Ele entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar.
A pasta acidentalmente se abre e papeis voam no ar. Ele os apanha com expressão de profunda revolta. Sacode a poeira. E se senta à mesa.
A garçonete novata e desengonçada traz à mesa. Chegara à conclusão de que ali faziam o melhor café que já provara. Ela sai.

Dia, 9h48:

As nuvens estavam pesadas. Ele entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar.
A gravada estava atada, cinto no lugar e os negócios iam bem.
A garçonete novata e desengonçada traz à mesa. Ela sai. Decidiu que tomara um vício por aqueles biscoitinhos também e logo procuraria à receita, mesmo não sendo lá muito habilidoso na cozinha. Ele engole tudo muito rapidamente, iria chegar atrasado no trabalho.

Algum dia, 9h43:

Os dia calorosos voltaram. Ele entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar.
Abre um grande sorriso ao fazer o pedido.
A garçonete desengonçada traz à mesa. Desta vez com um anexo: um bilhete. Ela sai. Ele lê tudo atentamente e mira ao redor procurando quem poderia tê-lo enviado. A mulher na mesa ao lado manda-lhe um sorriso. Ele sorri também.

Mais um dia, 9h30:

Um clima ameno, nem quente nem frio. Ele despede-se da nova namorada com um beijo, entra naquele cafée, pede o de sempre: um café pequeno e uns biscoitos para acompanhar. Logo ele muda de idéia e pede um chá. Hoje estava adiantado e poderia demorar um pouco mais. A garçonete desengonçada traz à mesa. Seria o chá dali tão bom quanto o costumeiro café? Dá um prolongado gole quando pára. Cai lentamente ao chão, duro como uma pedra. Ela sai.

domingo, 25 de abril de 2010

Sina

Narrador em primeira pessoa
impera em fatos suspeitos
e opiniões irrelevantes
Já não sei se entro em desvantagem
ou se fui perdendo velocidade

A vida é uma competição
antes mesmo de começar
Mas a batalha, de fato,
só existe quando persiste
a possibilidade de perda
Corações carentes sempre foram
o alimento favorito do meu ego

Então, dê um descanso
a minha alma perturbada
Porque, ao cruzar primeiro
a linha de chegada
vou querer ser o outro competidor
e ter inveja da minha cara fracassada

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Um mundo de idéias

Voltando para casa (se aqui me cabe a palavra), na escuridão entre um toco de cigarro sendo apagado pela garoa e um grafite dançante, vêm aquela máxima na cabeça: "O mundo é redondo". Seguida de um perigosa que até temo pronunciar: "Mas por que, afinal?". Sem quer criticar Copérnico nem nada, apenas estive refletindo sobre o formato do mundo.
Já falam muito sobre as dimensões, área e pontos carteseanos, não se trata disso, queria entender por a sociedade (humana ocidental,- ou uma colônia de chipanzés, também ilustraria o exemplo), crêem piamente na "ovalidade" do mundo. Calma, e antes que me venham com Weber's e Comte's da vida, recorramos à inatas de Kant: Em algum lugar num passado longinco alguém me disse que o mundo era redondo, E EU ACREDITEI. Você também. Todo mundo!
"Minha filha, o mundo é redondo." - Já dizia o Pai, o Padre, o Professor, o Político.
Entretanto ali, naquele beco de rua fedorento, me atrevi a olhar para frente e ver toda aquela extensão exatamente plana, mas nãããão... Existem os Erastónes, números, gráficos, toda aquela tabelada para provar que a terra é um ovo -de codorna pelo visto.
Se ninguém te contasse, você conseguiria imaginar?
Povos da antiguidade já pensaram na terra como um prato, carregada por tartarugas, elefantes, homens gigantes e condenados...
"Se é desse formato é por que num mundo ideal, no qual, esse é um mera cópia, o formato ideal é esse."
- Aham, Platão, Senta lá.
"Vamos analizar o seu inconsciente. Nos seus sonhos, o planeta tem um valor simbólico, e a sua frustração indica repressão e profundo trauma de infância. Tens um problema."
- E o que não é um problema para Freud? É um ótima maneira de explicar tudo. Temos um problema!... Ou eu tenho um problema... Mas o "grande problema" é que este exato encontro da minha latitude com a longitude não explica uma coisa: Por que o mundo tem que ser redondo ou quadrado quando existe um mundo de possibilidades pela frente.
"Eppur si muove!"
- Disse alguma coisa, Galileu?

sábado, 3 de abril de 2010

Registro: 3146767

Eu já sabia porque me abandonaste.

Em meio àquele mundo de loucos e sãos

Enfileirados para o abate.

Cada qual com seu código

Conhecendo a dor da espera,

Superando a dor da perda

Para abraçar com todas as forças

A dor do desconhecido,

Da tentativa e erro,

Do pecados previamente cometidos

E nessa sexta de paixões, ressuscitados.

Outrora foram

Apenas anseios e dúvidas

Enfiadas em alguma gaveta

Junto a projetos de futuro.

Carrego na minha cruz

Peso de um milhão de almas

Condenadas a vagar para o sempre

Procurando sons dissonantes

Coroados e untados com sangue.

As marcas nas palmas comprovam

A banalidade de ser normal.