quinta-feira, 11 de março de 2010

Sessão das três

“E lá vai ele de novo?”. Todos ficavam um tanto quanto chocados com a nova mania de Seu Zé. Algum tempo antes, o antes alegre e experiente senhor com mais anos do que Deus poderia contar, se tornara pacato e taciturno... Até a chegada de um Cinema na cidade.

Um antigo galpão foi alugado por uma empresa “chique do exterior” que rapidamente organizou salas, lanchonete, bilheteria... Tão perto que o vivido senhor atravessava a esquina e já estava lá.

O filho, já homem feito, não compreendia, quando criança sempre ouvia o pai reclamar “desse maldito hábito que os novos têm de ver aquela coisa quadrada piscando”. Nunca deu bola para televisão. O neto no computador era quase um desacato à autoridade. Dizia que no tempo dele, a era do rádio, tudo era mais fácil, MELHOR. Dizia que os meninos de hoje eram mal criados porque nasceram na época errada. No seu tempo, ai de moleque que atazanasse alguém. As pessoas eram mais sociáveis, a imaginação era mais fértil, a cidades eram mais limpas, até a comida tinha um sabor melhor.

Há mais de uma semana ele ia ao cinema todo santo dia no mesmo horário, ver o mesmo filme. Para alguém que via imagens em movimento como uma coisa pecaminosa era alívio vê-lo entretido com algo.

Não durou muito a aquele novo “hobby” preocupar o filho. Quando interrogado sobre o porquê de tanto passar horas dentro da sala escura soltava um curto e grosso: “Vá arrumar o que fazer!”.

A conselho da nora preocupada, o filho decidiu segui-lo um dia, sentou-se ao fundo do cinema, esperou as luzes se apagarem e, cuidadosamente, espionou o pai, alheio à sua presença. O idoso se mantinha de olhos fechados esboçando um leve sorriso com a cabeça recostada à poltrona. Então, ele só queria um lugar para dormir? Nem chegava a assistir o filme. Por que não fazia isso em casa? “Pelo menos, ele arrumou o que fazer”, se confortou o filho.

A família, já tranqüila, o observou sair de casa com sua maleta de couro. Seu Zé atravessou a rua entrou na sessão de sempre e se aconchegou na poltrona. Quando as luzes se apagam e a tela acende começa sua aventura: fecha os olhos, relaxa, e o barulho começa. Primeiro de um lado, depois do outro, o ruído estranho de criaturas que enfiavam as mãos até o fundo do pote e voltando carregada. Era independente o filme que passasse, Seu Zé só adorava o barulho de pipoca sendo mastigada no escurinho da sala. Fechava os olhos, repousava a cabeça, e ria. Ria...

Um comentário:

Tai Nog disse...

Eu arrumei o que fazer lendo u_u